Musa
Ela me olha com os olhos vermelhos e me beija com o hálito de cerveja, ela tem as mãos trêmulas e não consegue parar de dançar, ela me fala sobre a textura dos sons enquanto respira fundo, passa a mão nas paredes e acende um cigarro, tira um baseado da bolsa e vai ao banheiro toda hora. Temo que ela tenha misturado todas as drogas da noite.
E assim caminha a minha musa, chapada.
Mujeres
Tem essa garota que anda na corda bamba, se equilibra entre as margens do rio. Tem essa garota que anda sobre cacos de vidro sem nenhuma cautela. Tem essa garota que ama filmes do Hitchicock & idolatra Trofeau & acha a fase Bergman do Woody Allen a mais interessante. Tem essa garota que fica nua no mato e me estende a mão pra pular no precipício. Tem essa garota que se mudou pra Paris e anda lado a lado aos palhaços de rua. Tem essa garota atravessando a rua entre as luzes de faróis.
Aonde estão?
Aonde, garota, você se esconde?
Rocking hearts
Remember the times that you were so young to cry that the tears feld from your eyes like blue birds in the secret sky?
Remember the green-blue jeans that you often wear sleeping in my shouders?
Remember that I told you that one day I would come back?
Well, baby, here I am.
As noites nem sempre dão certo
No caminho do trabalho senti um cheiro de peixe podre, me lembrei das noites que não deram certo, acabando com a queda, acolhido pelas mães da vida, as esposas da rua. Não posso pois chamá-las de minhas, tal que minhas foram só por um instante. Não obstante posso negá-las, tal que minhas serão sempre que no caminho do trabalho o cheiro de peixe podre se fizer característico.
Hst
Ela me olhou e disse:
Você toma ácido?
Lembrei de Hunter Thompson e titubeei:
Hey, baby, take a walk on the wild side.
Lambi o suor da sua espádua tentando captar o resto do banho de mdma que ela tinha tomado.
Just a walk on the wild side.
A gente tentava se misturar, misturar noites de fogo com amor, dias de suor com aconchego, que comunhão estranha de ioga com cerveja.
Veja bem, meu bem, do outro lado da cidade não é bem assim.
Mais Bela que ela?
- O que você fez domingo, baby?
- Vi três filmes do Hitchcock.
De bode, revendo um Hitchcock. Talvez seja ela a garota no meu banho, na minha psicose.
Ele não gosta de mim, mas a filha dele gosta.
É bem assim, a gente acaba numa psicose estranha cheia de sorvetes e passeios pelas praças e filmes franceses. Meus óculos escuros não mentem a transparência escura e turva da noite, é tudo um reflexo, tudo psicose.
Filtro dos sonhos
Tudo que eu lembro é do dia amanhecendo e, é claro, eu não tava usando filtro solar quando o sol bateu na cachola. Tinha um ar meio frio e coca-cola, as nuvens mais bonitas de deus. Poxa, vai falar que você não entendeu?
Lírica na noite de preto e vermelho
Dessa vez não fui eu. Tirei meus sapatos e dei pra ela calçar, assim, com Chinaski me observando. O vão da porta do carro me dizia que ela ia pular, seu vômito se movimentando junto a cabeça pensa na janela, haja vento nesse fim de noite. Dessa vez não fui eu, mas sim, caímos no chão e prometemos nunca mais nos levantar, há que se prometer rosas murchas a uma garota que anda pisando em cacos de vidro sem receio. Foi assim, agora já não me recordo tão bem, somente da queda, dela foram três, contra duas minhas, a calcinha na pele lisa e macia. Há que se lembrar que, se não de tudo, pelo menos da queda das flores no nosso outono.
Pra um ele deixou os óculos, pra outro, um chaveiro. Pra mim foi essa garrafa vazia. Ela ecoa na noite com as nuvens cinzas e vermelhas pelos lares. De vez em quando eu tento quebrá-la, mas o que é vazio, o vazio controla. Nas noites cinza e vermelho é o que me sobra, da garrafa vazia o vazio também no peito, o charuto cubano, o uísque desfeito. Pra noite que rezamos sozinhos, os fantasmas varrem a casa. E ela em ich liebe vinho.
Meu velho bunker
dentro dela não vejo a solidão, passo os prismas da luz que entra pela brecha da janela no seu rosto e digo que aqui é o meu bunker. eu não morri dentro dela, ligo pro meu irmão no meio da noite perguntando qual o final de noite na taverna. e abro mais um vinho, quente, esperando que, no final, me reste um pouco dela, Marina, minha velha garrafa vazia.