Sei que te conheço

Que te vi passando
do outro lado da rua
ou pedindo uma dose
no outro canto do balcão;
sei que te vi
questionando a condição humana
antes de acender um cigarro,
que reparei nos teus jeitos
sem perguntar teu nome, 
te rabisquei nas folhas de um caderno
e descobri que pouco sabia
sobre os traços escuros enovelados que circundam teus cílios
então parei
por que sei
que te vi rondando pelos becos amaldiçoados, onde só caí
.e volto a perguntar.
indagar de ti,
quem nem o nome tive a dúvida de tentar
rock salina serena do ar.

Sei que te conheço

Que te vi passando
do outro lado da rua
ou pedindo uma dose
no outro canto do balcão;
sei que te vi
questionando a condição humana
antes de acender um cigarro,
que reparei nos teus jeitos
sem perguntar teu nome,
te rabisquei nas folhas de um caderno
e descobri que pouco sabia
sobre os traços escuros enovelados que circundam teus cílios
então parei
por que sei
que te vi rondando pelos becos amaldiçoados, onde só caí
.e volto a perguntar.
indagar de ti,
quem nem o nome tive a dúvida de tentar
rock salina serena do ar.

Tatuagem

Ela anda por aí
entre cantos de paredes
e canalhas.
dizem que ela
faz anal giratório
e não tem medo de amar.
Eu não acredito muito em fantasmas
não desse lado da noite
não com esses olhos de chumbo;
ela segue dissimulando
com velhos subterfúgios
e o hálito de menta,
é difícil assim
com big mama Thornton na vitrola
e todo esse cheiro de parques orientais,
acho que não vou conseguir muito:
continuo
a rodar
no dub e groove
das noites sem luar.

Último poema para a prostituta que roubou meu cartão telefônico

Ela tem três tatuagens na bunda. Teso no seu rabo mas me intimido quando ela pede pra lamber seu cuzinho - não sou frouxo, penso – depois de duas cervejas caio de língua.

Dia desses peguei ela enfiando um alfinete embaixo da unha. Fiz café e perguntei se queria com ou sem açúcar. - Irlandês - respondeu. Acho que esse não vai açúcar. Só tenho Jeam Beam, então misturo tudo e sei lá. Rezo pra Buda. Ele parece me entender mais. Coisa de abstêmios. De quem coloca bourbon no café da esposa. Um cara no trabalho perguntou se tenho namorada. Acho que ele não se referia àquela garota enfiando um alfinete embaixo da unha. Acho que não, respondi. Acho que não.

- Quer um copo, rapaz?

Era um franciscano. Tinha um copo de plástico na mão esquerda e queria que eu bebesse meu vinho Cantina da Serra nele. Eu estava na praça mais vazia da cidade. Olhei pro franciscano. Coloquei um pouco de vinho no copo dele mas continuei bebendo direto da garrafa. Ele foi embora. Franciscanos também são caras estranhos, mas não estão sozinhos nessa. Eles têm toda uma sociedade. Não sei muito sobre franciscanos. Não sei nem o que aquele sujeito tava fazendo com um copo no meio da madrugada.

- To fodida y tu também. – aquilo eu já sabia – É o meu teste. - Entregou-me um papel com a impressão de algum hospital. Beneficência não sei o que. Tava escrito o nome dela. María de los Santos. E logo abaixo “HIV +”. Estendi a garrafa rumo àqueles olhos vermelhos chorosos.

Falei pra você não enfiar aqueles alfinetes embaixo da unha. – Estava bêbado, não sou tão inocente assim.

María era uma Paraguaia que não tinha lugar no mundo. Tava fodida muito antes daquele teste sair. Muito antes de fazer qualquer teste. Mas era fato que havia emagrecido nos últimos meses. Achei que era por causa da droga. O crack tem dessas. Nem havia me falado que tinha ido num hospital. Na verdade ela não falava muito.

- Mi querido.

Deitou no meu peito e bebeu toda a garrafa num gole só. Paraguaia do diabo. Lembrei da sua bunda e pensei nela indo passar o café. Ela não é como as mulheres da televisão. Tem uma bunda magra e fica linda na calcinha verde-musgo que lhe comprei num brechó. Tem também dois dentes faltando no fundo da boca e a droga tá comendo mais um deles. Não sei o que vai ser agora, sei que não vai ser mais como das outras vezes. A gente dorme junto na rua essa noite, falei. A garrafa de vinho tá vazia há um tempo, de qualquer maneira. Vi na TV da rodoviária que esta noite vai ser a mais fria do ano. Esses idiotas da TV acertaram. Pelo menos uma vez, né.

Passamos a noite mais fria do ano na rua, abraçados, e María quase morreu de hipotermia. Não foi dessa vez. Ela tremia e só melhorou porque consegui umas moedas e comprei uma dose de Presidente pra esquentar o peito da garota. Um dente dela caiu logo pela manhã. Mais um. Resolvemos voltar pro barraco que a gente chamava de casa. Trepamos e jurei que era a última vez sem camisinha. María disse que me amava porque eu não a olhava com dó. Eu disse que não a olhava com dó porque a amava.

Quando cheguei ao trabalho me perguntaram por que havia faltado no dia anterior. Respondi que minha avó tinha morrido. O que não era mentira. A velha tinha ido embora mas fazia dois anos. Eles engoliram. Passaram uma papelada pras minhas mãos e falaram pra fazer o trabalho acumulado. Os filhos da puta achavam que eu era um burro de carga. Enquanto preenchia os papéis pensava em María, no HIV, no filho que ela abortou, na lápide que roubou certa vez e depois cravou no quintal dizendo que era a lápide do bebê. Ela não tava nada bem. Ela nunca esteve bem, na verdade. Mas acabei me apaixonando por ela. Por isso comprei flores e coloquei debaixo da lápide. Por isso eu vou lá todo domingo e coloco água nelas. E rezo pra qualquer fiapo de divindade que não ligue pras minhas reclamações. É por isso.

Volto pra casa e María está com o cara que trafica a droga. Pela cara ele já viu o exame. Eu sei que ela já deu pra ele numas de conseguir mais crack. Eu sei que ele é um filho da puta e já trocamos socos muitas vezes. Mas não adianta. A droga é foda. Fico olhado eles estralarem e abro uma cerveja quente. Só tem cerveja quente em casa porque María quebrou a geladeira. Eles entram na viagem, é tudo muito rápido e muito alucinado. Paulada. Ela nóia. Ele sai pra rua muito louco e eu tenho que ficar e aguentar a loucura dela. Eu sempre fico e aguento a loucura dela. Isso porque a amo. Por isso espero ela quebrar todas as garrafas. Por isso observo pacientemente ela enfiar uma agulha embaixo da unha. Por isso eu tomo essa cerveja quente. Porque numas de tentar lidar com a loucura da droga, María acabou quebrando a geladeira. 

Ela segue assim, quebrando garrafas e deixando cacos de vidro pelo caminho. E eu teimo em ir atrás. Mesmo sabendo das consequências. Mesmo sabendo que dessa vez é diferente, que María nunca tá bem.

Os tigres morrem na Malásia


E tudo que lembro do futuro
são fumaças de ar
ou nuvens
não vejo o certo
sêmen radioativo e césio-137
o cordão umbilical roto
sua mãe gritando na chuva
                    mas ninguém pôde ouvir
                    as mães estarão perdidas na chuva
                    e ninguém poderá ouvir
os peixes de Bocaina
as galinhas do Taboão
os porcos do Japí
&
ninguém para ouvir
as asas de petróleo e
                      cal
do albatroz petrificado
                      num grito quase sussurro
                      esmagado no cimento
                      pelos homens de metal.

Relatos tendenciosos de fatos imprecisos #1

Dagmar não tava não



“Procure o Izac.”

“O que?”

“Da estrada você entra na vila subindo o morro pega a bifurcação para a direita, logo depois do trajeto se tornar sinuoso vire à esquerda, chegando lá tem uma Kombi que te leva até o barco passando pelo condomínio Laranjeiras, de lá você atravessa um pouco de mar até chegar na praia, no terceiro camping à esquerda da mangueira perto do caiaque amarelo procura um cara chamado Izac.”

Teria que ser assim, o sentido de todo o trajeto seria sempre esse, encontrar um guia que distribuísse visões da praia exclusa aos poucos homens que ariscassem desprender-se do deserto existencial que assola a alma dos habitantes da cidade grande, da metrópole caótica urbana. Não que fosse tudo paz. O trânsito não entra de folga em dias santos. O trânsito acompanha as curvas e estreitas estradas litorâneas e esteriliza a beleza inata que abrigavam as trilhas de indígenas em transe de ayuhasca. Não que fosse tudo paz. Atravessamos a noite em busca daquilo que a garotinha no banco de traz gritava “Paia! A paia”, “Quando ela crescer vai entender que não é só areia e mar que nós estamos procurando” diz meu amigo em alguma viagem pela noite em claro depois de me ver quase bater seu carro num lapso, na falta de grana pra boleta derradeira. Freei como um louco acordado pela descarga súbita de epinefrina.

“Paia!”

“Calma filha, pra onde a gente vai há algo mais que mar e areia.”

Meu amigo é certeiro. O gancho veio depois de doze horas guiando o Gol branco 1989, agora abandonado no município do Sono.

Quatro cervejas quentes e dois cigarros depois estávamos atravessando um território de perigo dominado pelas elites de proxenetas enrustidos e semi-deuses televisivos e todos os diretores de programas de domingo que esperam ansiosos por garotos classe média alta usuários de esteroides para dar uma bela foda na promessa de transformá-los em heróis Greco-romanos nesses programas mais vistos por todas as casas que ostentam uma antena no seu teto de vidro.

 Obviamente eu não era um deles. Tampouco os amigos que trilhavam o caminho incerto rumo à praia do Sono. Portanto jogamos todas as malas no barco e partimos. Não havia como ser de outro jeito. Não havia como esconder nossos olhos com óculos escuros. E nem por quê. O brilho era certo, quando se mistura areia na água não tem erro, o raio dará cabo de transformar tudo em vidro e a nós cabe poli-lo. Foi justamente por isso que só trouxe uma pequena mochila e minha barraca. Porque tinha toda a história já escrita na cabeça. “Esse lugar é uma das provas de que a necessidade de viver em metrópoles é uma ideia falha” digo ao meu amigo que me mostra pela areia fofa o melhor caminho pra armar a barraca. Era certo que a noite logo viria e provavelmente eu conseguiria ver novamente o céu com a sinceridade que foi proposta por quem o colocou ali, sobre nossas cabeças fracas.

-

A noite enfim surge pela linha do mar e não há ninguém conhecido no camping, ouço gritos “UUiiirrr” e galos cantando. “Vininha” chamavam. Era meu nome. Saio e não vejo nada além de luzes de lanternas cruzando a escuridão da praia sem energia elétrica. Desço o banco de areia e vejo fogueiras montadas no céu, vejo Órion inteira caindo. “É quente” diz meu amigo sobre algum comentário que eu havia feito anteriormente e logo some na noite, mais um se confundindo entre as lanternas e vaga-lumes.

Volto a dormir e me lembro de toda a conversa desencontrada descendo a serra no Gol branco 1989. Meu amigo falando sobre ter virado vegetariano e todos os lucrativos negócios que obviamente querem continuar mesmo que sejam causadores de efeitos devastadores para a sobrevivência do ser humano na terra “o mundo não vai acabar, isso é fato, o mundo vai continuar por aí, mas ele pode mudar de uma forma que seja incompatível com a vida humana” o mundo está cravado no umbigo do ser humano. O que não é de todo errado, sendo que para a física quântica moderna é necessário existir um observador. Mas nem toda a física é quântica e nem todos os seres perecem de despeito e ódio pelas flores na primavera.

Levantei muitas vezes durante a noite com pessoas entrando e saindo do camping e a luz que nunca se apagava. Eu saía na areia e via luzes de lanternas trôpegas cruzando o breu entre fogos e vaga-lumes.

Quando finalmente raiou o dia e os galos cantaram por toda a floresta tomei minha ducha gelada (só havia água gelada no Sono) e saí com três maçãs, uma cerveja quente e um romance de Raymond Chandler embaixo do braço. “Você vai beber essa merda quente?” perguntou meu amigo incauto. “Tem alguma gelada?” “não” “então a resposta é sim” disse-lhe tomando um gole da cerveja quente, que não deixava de ser cerveja apenas pelo fato de não ter sido gelada, o sabor era o mesmo, não estava choca nem vencida. Enquanto comia as frutas baratas que havia levado olhei para o lado e tentei conversar com uma garota. Ela dizia sobre a cidade em que morávamos e o fato de apenas existir lá uma revista de coluna social. “Não leio catálogos de celular”. Eu sabia que não queria voltar. Casa é de onde fujo. Mas havia uma missão estranha, um karma filha da puta, do tempo que não passa. O tempo é foda. É assim como todas as coisas. É esse o karma de estar aqui e agora? Não me importo mais como quando era moleque e acreditava que havia nascido na época errada. Não. Estou sim aqui e agora e é isso o que importa realmente. Estava na praia do Sono no meio de um festival com o céu do dia mostrando que todas as viagens de foguetes e astronautas entre astros caóticos trouxeram-me aqui, no meio de todas as pessoas que acreditam, entre garotas que sabem que um festival numa praia deserta pode estender a visão de homens que ainda tentam passos pela areia fofa e incerta.

Pegamos um bote inflável e remamos até o convés de um barco pesqueiro que se aproximava da praia, mas a comunicação falha não é culpa apenas dos novos meios virtuais. Talvez fosse o preconceito pelas tatuagens no peito. Todos preconceituosos. Todos vitimados. Negros, brancos, gays, tatuados, filinhos de papai, crentes, ateus, revolucionários, carecas zen budistas, apenas uma pequena parcela é isenta (será), aquela que é invejada por todos. Demos sete pulos do convés pra tentar a sorte no atlântico e remamos de volta. Havia uma pequena garota a gritar por nós ao mesmo tempo em que surfávamos uma onda com o bote.

Já era hora. Mascamos três folhas de ayuhasca enquanto a noite se preparava para chegar. Foi então que saindo do camping, no meio de passos em conversas atravessadas, surge aquela garota dos poemas. Entreguei-lhe novamente o poema à beira mar e depois transcrevi todos os livros esquecidos da montanha de Airacuara. Mari Blue, eu a chamava. Aparecia com aquele sorriso novamente no meu cérebro distorcido pela benzedrina e md, trazendo toda uma trilha sonora de músicas desconhecidas cantadas por duas garotas e um compositor anônimo de Paraty. Eu tentava o rock, mas era tarde de mais. Mari Blue se alojara logo ali com a noite chegando e o vinho passando de boca em boca como um ritual indígena em que beberíamos todos em cuias ou cabaças, mas agora era aquele vinho numa garrafa de vidro e ela terminando o circuito de Papez na minha cabeça.

“Ninguém sabe quem é Banksy, na real”, termina meu amigo uma conversa de mais ou menos uma hora sobre a street art e como iríamos bombardear a região do Planalto Central com ogivas que explodiriam em tinta guaxe, gerando uma das maiores intervenções artísticas da história e safando-nos da cadeia com a alegação de licença poética.

Levantamos e nos dirigimos ao quiosque em que acontecia o festival de cultura com projeções de filmes e bandas de reggae e forró e algumas bandas com composições próprias vindas da região, todos bebiam cerveja e pinga com mel e limão. Com pouca roupa, muitos dreadlocks, tatuadores profissionais e jogadores de bocha juntavam-se em torno de um odor característico vindo do vento mata adentro. Justo. Justíssimo, pensei. Justo que todos esses jovens insanos tenham a oportunidade de se reunir em lugares inalcançados pela polícia ou pela política.

Estamos no meio da noite entre uma conversa e outra antiga, aquela mesmo que eu disse sobre signos expressivos feitos no subúrbio de Buenos Aires e uma dreadlocks loira aparece com a tatuagem de uma junkie triste na Argentina, fruto de nossa melancólica viagem de ayhuasca. Pergunto se meu amigo já ouvira falar em maldição, no pecado inicial em que a felicidade já traz consigo a culpa, em Albert Camus, e ele responde “isso aqui é que é o purgatório, não aqui nessa praia, mas também, desde que nossas cabeças não consigam se livrar do purgatório, o purgatório é nossa cabeça e estamos acorrentados a isso e apenas isso” eu sorrio triste o sorriso de quem sabe por dizer a ideia de purgatório, mas não acredito muito que divagações irão nos ajudar. Olho então para o copo na minha mão e tenho a pinga com mel e limão que meu amigo Guilherme fez para festejarmos essa noite de fogos e constelações em centelhas. É claro que nada disso faz sentido, mas andar mil e quatrocentos quilômetros em trinta horas na estrada não é algo que tenha necessariamente que trazer um sentido. Justamente a falta dele é o que faz a viagem colocar-nos em um novo lugar, uma nova espécie de transe careta em que apenas o estar na estrada gera alguma forma de barato, apenas estar se locomovendo pela superfície e seus interiores e constatando a realidade pelas mãos sujas de rodoviária e não por notícias ou jornais absorvidos da tela em estaticidade reumática cerebral. É quase isso. Essa noite é quase um amor gritado na escuridão. Quase cem mil anos de expirações.

-

Duas horas depois de amanhecer é que levanto. Duas canecas de leite depois de infinitas cervejas quentes. Lembro-me que talvez consiga uma carona com Uai, um desenhista que se entretêm fazendo texturas no couro humano. Coloco a mão na cabeça e percebo que meu crânio está um pouco maior, assim como minhas unhas. Uai diz que não será possível, seu carro já está lotado. Penso então que tenho vinte e quatro horas para percorrer todo o caminho de volta e chegar a tempo para o trabalho. Era um fim de feriado. Sabia que congestionamentos e a insanidade do trânsito de metropolitanos com nervos a flor da pele conspirariam para que nada desse certo. Sento então numa mesa de bambu. Tento trilhar mentalmente o roteiro dessa volta não planejada, assim como todos os outros roteiros da vida.

“Você que acabou de desmontar a barraca ali?” pergunta-me um homem surgido na outra ponta da mesa.

“Não, eu estava em outro camping.”

“No aqui do lado?”

“Não, no que tem uma cerca de bambu, depois da igreja.”

“Ah, o depois da igreja.”

“Ele mesmo.”

“O pessoal veio em peso pra cá.”

“É, isso não costuma acontecer?”

“Não, isso aqui é sempre vazio. Por isso é bom.”

“Qual o seu nome?”

“Izac”

Um casal chega pedindo água. Izac some no meio da mata. Três minutos depois reaparece com duas garrafas. Vejo pelo jeito de andar que é um dos bravos homens que se arriscou a desprender-se do deserto existencial da vida urbana contemporânea. Ele fala sobre as espécies de árvores e sabe exatamente a melhor para construir cada coisa, diz que apesar do Sono ser a comunidade mais preservada da região e do condomínio Laranjeiras ter devastado um território gigante, a fiscalização cai pesado em cima deles e os proíbe até de confeccionarem suas tradicionais canoas artesanais com as toras locais. Izac fala bem sobre diversos assuntos e dá pra notar na sua serenidade e segurança a diferença do homem das metrópoles. Sabe qual erva tomar quando o estômago dói e qual buraco é o mais fundo na areia. Sabe exatamente que hora do dia a água do mangue sobe e que é nesse momento que os caranguejos começam a pular.

Digo que tenho que tomar meu caminho - que por sinal é longo - e que voltarei um dia pra aprender sobre os medicamentos escondidos e os segredos que guardam as matas mais profundas do continente. Meu caminho é longo. Tomo ar e pego o barco de volta. Só, como realmente tinha que ser. A procura está bem ali, na estrada e dentro do tempo que passo a sós com a maquinaria sub-dural. Não tenho respostas, é claro, assim como Steven Doris me disse no inverno de 2012 “respostas são o que menos tenho, meu velho”. Então tomo o ônibus para Paraty e descubro que todas as linhas para São Paulo estão lotadas e que o congestionamento é o maior do ano. Espero sob o sol de Paraty um meio de chegar a Ubatuba e de lá tentar seguir para São Paulo e finalmente pegar um ônibus para Ribeirão Preto, de alguma forma conseguir chegar ao trabalho a tempo. Espero sob o sol de Paraty e lembro-me da garota que conheci na noite anterior contando que no dia em que se completaram vinte e dois anos que morava em São Paulo (o dia de seu aniversário de vinte e dois anos) ela resolveu mudar-se para Paraty e conhecer intrinsecamente algo além da maior cidade da América do Sul. Desde então trabalhou em quebradas, hostels, bares e agora dava aula em cursinhos de inglês. Contou-me que Paraty é uma cidade que está acontecendo, aqui e agora, na música, teatro, ambientalismo e toda essa forma de amor pelo solo em que pisamos. Paraty é um porto mundial em fluxo de ideias transatlânticas constante. Afinal, ela estava lá, no festival da praia do Sono. Não só estava como o fazia acontecer, cantando com sua banda de Paraty que na verdade era de São Lourenço. Tantas cidades somente citadas. É porque tenho que voltar que não posso me aprofundar mais no assunto. Aprofundar na minha pesquisa constante. Todas essas cidades. Posso apenas citá-las nos acontecimentos e desencontros.

Espero sob o sol de Paraty o ônibus que me levará para Ubatuba e de lá tentarei ir para São Paulo pra, quem sabe então, chegar a Ribeirão Preto. Espero sob o sol de Paraty e é com a sinceridade da estrada que escrevo essa carta, enquanto o ônibus não aponta na esquina vou seguir devorando um pastel e gastando meu lápis nesse diário sujo de rodoviária.

 

Algum lugar de setembro de 2012,

     Marcus Vinícius Marcelini.

To the other side

Quantas cervejas ainda batendo no portão… Quantas doses de uísque? Espelhos e cartões - banheiro sujo. Teu nome tá em tudo, meu velho. Mais que teu nome, teu espírito certeiro, teu punho subversivo, quebrando a limiaridade da vida. Quantas cervejas já se foram? Nem o garçom american bar sabe. Quantos dólares no poker pela madrugada? Mulheres, garrafas quebradas? Mais que teu nome. Teu espirito de arame e teu punho incenerário quebrando tetos de vidro na rua.

Sem queixas

Comprei um vinil do Otto, deixei de lado meu gosto por coisas velhas, ando curtindo garotinhas de dezessete anos, não ligo mais pra palavras, saí das ruas com as pernas cruzadas, ando pensando em dias chuvosos e estradas longas. Minha garota toma sopa de letrinhas e teima em me perguntar por quê. Apago a luz com o dedo do pé e lembro do diabetes, do sal e da bebida. Apago a luz com o dedo do pé, mas ela não consegue me apagar dos pensamentos. Já faz doze horas, três dias e uma vida. Não consigo me lembrar das cores, isso que procuro no escuro, o amor sem nome. Isso que anda corroendo sem doer, que olha pro nada e busca cachoeiras nas curvas da estrada. Será que ela realmente volta da Rússia? Por quê invade meus sonhos sem pedir licença? Não mede as consequências de intervenções oníricas. De gritar no escuro, isso que procuro, o amor sem nome.

Just do it

Eu sei dos seus olhos de lua e sorriso de praia. Da saia sob vícios e fogos. A poesia incrustada na rua. Equilibrando-se no parapeito, sandálias, a corda bamba no fio da navalha prestes a cortar. Eu sei da última cerveja da noite, do último livro, do suspiro de Pedro Juan Gutierrez ouvindo o discurso comunista. A última cerveja. Não insista. Descarregue essa metralhadora no meu peito vazio. Até a última gota. Eu sei que é aí que sobra espaço. Depois da última bala, o último desgosto. É aí que sobra espaço.

Musa

Ela me olha com os olhos vermelhos e me beija com o hálito de cerveja, ela tem as mãos trêmulas e não consegue parar de dançar, ela me fala sobre a textura dos sons enquanto respira fundo, passa a mão nas paredes e acende um cigarro, tira um baseado da bolsa e vai ao banheiro toda hora. Temo que ela tenha misturado todas as drogas da noite.
E assim caminha a minha musa, chapada.

Mujeres

Tem essa garota que anda na corda bamba, se equilibra entre as margens do rio. Tem essa garota que anda sobre cacos de vidro sem nenhuma cautela. Tem essa garota que ama filmes do Hitchicock & idolatra Trofeau & acha a fase Bergman do Woody Allen a mais interessante. Tem essa garota que fica nua no mato e me estende a mão pra pular no precipício. Tem essa garota que se mudou pra Paris e anda lado a lado aos palhaços de rua. Tem essa garota atravessando a rua entre as luzes de faróis.

Aonde estão?

Aonde, garota, você se esconde?